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Um papo sobre a morte ou ...

Eu fui criada numa família bem excêntrica, não posso chamá-la de Buscapé porque eles são excessivamente urbanóides, apesar de terem suas raízes no interior, e como eu ia dizendo ... Eles me ensinaram um monte de baboseiras e uma forma muito diferente de olhar e viver a vida, pois é, a culpa de eu ser assim é deles. Um belo dia alguém morreu, sim as pessoas morrem, passam no vestibular, casam, compram revistas e comem pipoca, tudo é normal pra mim, é normal trair, apesar de eu não aceitar, é normal perder, é normal ganhar... tudo é consequência de nossos atos, se ele não me ligar é porque provavelmente eu não sinalizei que podia, ou, ele não quis mesmo... Não choro, não espero e na maioria das vezes, não sofro muito, tá tudo bem, quando eu resolvo sofrer, eu sofro muito e com muito estilo e muita classe, afinal, na maioria das vezes o que vale é o drama. Claro, ... eu sou free demais ...
Porém, num belo dia, eu estava batendo papo sobre a morte e foi mais ou menos assim o diálogo:
(...)
- Pois é, e como é a morte pra você?
- Bem, eu fui criada numa educação que morrer faz parte, e essa pode ser a melhor delas, imagine, você cumpriu tudo que tinha pra fazer e agora pode morrer.
- Mas, como assim?
- Pois é, na filosofia de vida doida de meus pais é assim que funciona, só choramos por algumas mortes, as provocadas e mesmo asssim, as vezes achamos um porque disso acontecer e nem dói tanto ...
- Mas você nunca sofre?
- É claro que sofro, as vezes sofro meses depois, mas eu sofro. Quando meu avô morreu, eu nem sabia o que estava acontecendo, não havia choros altos, ou desespero, ele estava velho, doente e se continuasse vivo sofreria muito, o cancer já estava em uma proporção que as dores seriam fortissímas, eu tinha apenas 8 anos, e já lidava com isso assim, dessa forma. Mas quando minha avó morreu foi bem diferente, eu fiquei sem chão, ela era minha referência, ela quem me comprava discos, livros ... foi quem me ensinou a ver tv, quem me disse pra esperar, quem me defendia até quando estava errada, eu era a neta predileta mesmo quando ela dizia que eram os meninos de Tia Vera, eles nem iam lá em casa direito. Eu estava lá todos os dias do ano. Foi dela que eu escondi o primeiro beijo, o primeiro namorado, foi ela quem tentou me ensinar a bordar, a cozinhar e a comemorar aniversários, me ensinou a compartilhar e ensinou minha mãe a ligar toda hora. Eu sofri. Foi o pior dia da minha vida e mesmo asssim, eu posso jurar que o dia do enterro dela foi o dia mais lindo do inverno de 93, era aniversário de Tchoris e fomos assistir Jurassic Park no cinema perto de casa, aaaaaaaaa, eu adorava ir pro cinema naquele shopping até aquele dia. Minha irmã continuou adorando, acho que o cinema fazia ela esquecer das coisas sérias, durante algum tempo da minha adolescência cheguei a pensar que a CDF da casa faria algo no ramo, pelo menos hoje ela mora em Londres, e a ida dela é um roteiro de cinema. Acho que depois disso as outras mortes foram mais fáceis, haviam risos e histórias nos enterros, eu fiquei algum tempo sem eles, depois eles voltaram a ser constante, é a idade chegando. Mas eu lembro que eu tive medo que a morte chegasse quando minha mãe teve o cancer, poxa, que medo, ali foi um pouco da morte, algo aconteceu depois daquele ano, eu passei a pensar mais em mudar, em aprender, em crescer, em ter que viver logo... Acho que o medo da morte mudou algo em mim. Algum tempo depois eu vi meu pai chorar pela primeira vez por alguém, o melhor amigo, o irmão mais velho, o pai que ele não teve, um tio querido, presente, amigo, fomos fortes pra abraçar meu pai sem chorar, tinhamos que entender que precisamos estar junto de alguém que perde alguém senão seríamos ainda mais monstruosos, choramos mais com novela, temos que confessar, mas não somos frios, só acreditamos que metade da gente chora e a outra metade comemora, uma etapa se cumpriu e olhamos a vida dele e percebemos que ele não se cuidou, mas que ele viveu, fez tudo que quis, se divertiu, teve filhos, amigos, amores, netos, sua vida foi completa e damos risada da conta atrasada, ele morreu na fila do banco, morte súbita como morrem os Pacheco´s. Um dia chorei quando mataram um bebe na barriga, eu sofri tanto por aquela criança, eu entendo as razões da mãe, mas tadinha daquela pessoinha, ela perdeu a chance de viver e de morrer, nessa ordem. Eu sofri quando meu amigo se acabou de drogas e depois se jogou do oitavo andar, não acredito, quem eram aqueles amigos que permitiram isso? Ou pelas crianças da Candelária. Sei que um dia vai doer muito perder alguém, mesmo se for chegada a hora desse alguém, e por isso eu sou acompanhante de enterro, é chato, é cansativo, eu nunca sei o que falar, mas alguém sempre precisa de outro alguém quando perde alguém.

Comentários

Silvana Maciel disse…
entendi enterro depois de adulta, exatamente da forma que você descreveu: "alguém sempre precisa de alguém por perto quando perde alguém".. Enterro é pra gente acreditar, e pra poder dar colo e chorar a esmo, se precisar. bjs pra sua família, que te mostrou assim..

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