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adoro Histórias

o bom de conversar com as pessoas é que você sempre acaba ouvindo boas histórias, e eu vou tentar contar a história de Seu Miguel, o taxista que nos levou pro aeroporto.

Seu Miguel era um senhor de aproximadamente 70 anos e tinha muita paciência com um casal confuso e cheio de malas pesadas, diga-se de passagem, eu sou o lado desconfiado e super o confiante, acho que a vida meio que me calejou, porém, sempre, alguém nos aparece pra mostrar que não vale a pena julgar pela fama. Os taxistas têm a fama de dar voltas, os cariocas então, medo deles, apesar de sempre ter tido muita sorte com taxistas no dia a dia, sim eu consumo bastante esse meio de transporte, toda vez que eu vou pro aeroporto eu acho que vou tomar a volta rsrs.
Ao entrar no carro fui logo dizendo: estamos atrasados (ótima tática pra impedir uma possível volta, uso-a sempre), aí Super que não me deixa enrolar as pessoas vira pra mim e fala: Mas Super, vamos dizer o horário que precisamos estar lá que ai ele não precisa se "avexar".

- Que horas vocês precisam estar no aerporto? - Seu Miguel entrar na nossa discussão.
- Precisamos estar lá as 19:50 ... - respondeu Super com meus beliscões
- ahhhh, não se preocupem, chegarão lá com tempo pra comprar revistas e tomar um café ... - disse seu Miguel tdo simpático.
- Vão pra onde?
- Vamos pra Bahia ...
- eu estou no Rio há 52 anos ... - e com sua sabedoria incrível resolveu nos contar sua história depois que explicamos a ele que estavámos voltando pra nossa terra e tal ...

"... vou contar a vocês a história de minha vida. Eu nasci em Sobral, uma cidadezinha do Ceará, eu tinha 14 anos quando fugi de casa depois de ter perdido em todas as matérias no Colégio, inclusive religião, eu tinha certeza que ao chegar em casa eu tomaria uma surra, foi ai que resolvi ir embora, cheguei no posto de Sobral decidido e sem um tostão no bolso apenas a certidão de nascimento na mão, documento que levaria a escola pra refazer minha matrícula. Ao chegar no posto avistei um caminhão me joguei na carroceria e me escondi, foram 3 dias assim, de dia eu dormia no calor embaixo da lona com a carga, e a noite quando Seu Pedro ia dormir, sempre em postos, eu descia e pedia comida para outros caminhoneiros, e foi no terceiro dia que seu Pedro me achou, ele disse:
- Eu não volto mais, e você vai pra onde?
- Eu vou pra São Paulo...
- Então vamos.
Foram 28 dias de viagem, dormia durante o dia e tomava conta da carga durante a noite. Após 28 dias de viagem, naquela época não existia a 106 e vir pro Sudeste demorava muito, e foi em Entre Rios, que o destino de minha vida começou a mudar, chegando lá, Seu Pedro que já não tinha mais dinheiro para seguir viagem resolveu mudar seu destino.
- Miguel, vou ter que mudar meu destino, por que você não vai pro Rio de Janeiro ao invés de São Paulo?
- porque eu não conheço nada no Rio ...
- e o que você conhece em São Paulo?
- ...
Seu Pedro vendeu seu único bem, um relógio de família, me deu uma nota de 5.000 cruzeiros, que eu vejo ela até hoje na minha cabeça e uma muda de roupa e me deixou na Praça Mauá. Chegando lá eu pensei, vou conhecer o Maracanã, peguei a lotação Meier via Maracanã, entrei no ônibus e pedi que o trocador me avisasse quando chegasse o Maraca, e ele esqueceu, como assim, esqueceu o Maracanã?
- oi, já chegou o Maracanã?
- ô, meu filho, já passou, mas você pode descer e voltar, são só 6 quadras.
Desci do ônibus em frente a uma farmácia com um pequeno anúncio: Precisa-se de Contínuo. Entrei na farmácia, procurei o dono e disse que estava disposto a trabalhar ali. Seu Joaquim que era marido de Sra. Josefa, disse:
- Você pode começar quando?
- Agora mesmo, eu não tenho pra onde ir.
Seu Joaquim que ao saber que eu já tinha experiência em farmácia, pois ajudava meu pai na sua farmácia em Sobral, onde eu não só atendia clientes como aplicava injenções e limpava a loja, e também depois de saber que minha família havia "morrido", história que contei pra sensibilizar o casal, Seu Joaquim me contratou e deixou que eu dormisse nos fundos da farmácia. Com o tempo fui conquistando a confiança de Seu Joaquim. Seu Joaquim me mandou estudar pela manhã, a tarde eu o ajudava na farmácia, cada vez mais ligado a ele, foi quando depois de 3 anos resolvi que precisava estudar a noite pra que pudesse ajudar mais na loja, foi quando ele me deu as chaves da farmácia. Com 18 anos fui servir ao exercito e lá tive a notícia que Seu Joaquim havia falecido, ele que era meu segundo pai, voltei pra enterrá-lo quando soube que ele havia dividido as poucas coisas que possuia, uma farmácia num ponto alugado e um pequeno imóvel de 2/4 na Zona Sul, entre eu e sua esposa e seu filho, filho esse que não valia nada, não valia nada mesmo. Achei melhor passar minha parte pra Dona Josefa, dali fui ao cartório e me certifiquei que minha parte ficaria toda pra ela. Sai pelo mundo. Ao sair do exercito casei. Com 21 anos, já com minha primeira filha, resolvi ir visitar minha família em Sobral.
- Mulher, vamos pro Ceará ver meus pais
- Mas seus pais não morreram, homem?
- essa foi a história que contei ...
Ela se animou, bilhetes comprados. Ao chegar em Sobral fomos a Farmacia de Papai, e lá soube que eu havia morrido. Um amigo chamado Alcides contou a meus pais que ao sair da escola eu tinha ido tomar banho no açude, mergulhei e não mais apareci, o Corpo de Bombeiros da Região já tinha feito as buscas e nada. Ao entrar na Farmacia, D. Maria, que trabalhava lá desde a minha época quase caiu pra trás quando me viu.
- oi D. Maria!
- Quem é você? De onde eu te conheço ... - assustada
- sou eu, Miguel, cadê papai?
- meu filho, você não tinha morrido ...
Foi ai que soube da história.
- Seu pai está no Piauí ..
- E mamãe?
- Sua mãe mora no mesmo lugar.
Larguei as malas na farmácia e seguimos em direção a casa de mamãe que ficava a poucos metros dali. Cheguei na porta de casa, pedi que minha mulher e filha esperasse na porta e fui entrando, casa de interior não se trancava as portas naquela época. Entrei em casa e chamei por mamãe, que assustada veio ver quem a chamava, olhou pra mim e me deu um tapa no rosto, minha mulher quis se meter eu acenei pra que ficasse onde estava, mamãe me abraçou, choramos juntos, contei o que havia acontecido, ela mandou um telegrama pra papai que voltou em 2 dias, ele me olhou e disse:
- Eu sabia que não tinha morrido, você era um excelente nadador e não morreria num açude besta.
Encontrei Alcides que havida inventando a história e de ali em diante, todas as férias ia pra Sobral, visitar mamãe, que hoje mora em Fortaleza sem Papai."
Foi o tempo certo pra chegarmos no aeroporto, Seu Miguel olha pro relógio e diz: eu não disse, chegamos antes do esperado, qual a companhia aerea?
Ao descer do carro e tirar as malas:
- Quanto deu a corrida? - me antecipei
- 33 e 90
- Pode cobrar 35, muito obrigada, Seu Miguel.
- Por nada, meus filhos, boa sorte na nova vida de vocês e acredite que nada é por acaso, nem essa corrida.

e isso aí foi meu último dialogo com um nordestino perdido na cidade grande.
eu queria saber contar histórias.

Comentários

Nanda disse…
caralho
to emocionada!

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